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São Paulo, Sabesp e o Ranking de Saneamento: vejamos os números (e vejamos de novo)

Atualizado: 20 de mai.

No dia 1º de abril, coisa de um mês atrás, o Instituto Trata Brasil publicou o Ranking do Saneamento de 2022 (sim, isso existe). Para tanto, foram considerados dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2020) referentes aos 100 maiores municípios, de acordo com as estimativas populacionais de 2020 do IBGE (a tempo: esses dados vêm das operadoras de saneamento).


O fato é que a cidade de São Paulo, com dados fornecidos pela Sabesp, figura entre os primeiros na lista no documento: está entre os melhores municípios no que se refere ao “índice de atendimento urbano de água”. Aliás, dos 20 melhores municípios do Ranking 2022, oito são do estado paulista, sendo cinco deles atendidos pela Sabesp.


Os indicadores “positivos” (já explicamos as aspas) de São Paulo, concedidos pela maior concessionária de saneamento do Brasil e uma das maiores do mundo (a Sabesp, só para não deixar dúvidas), não param por aí:

• Atendimento total de água: 99,3%.

• Atendimento total de esgoto: 96,3%.

• Atendimento urbano de esgoto: 97%.

• Esgoto tratado referido à água consumida: 74,13%.


Tem mais: quanto ao “investimento total dos últimos cinco anos”, São Paulo é o grande destaque, com mais de R$ 11 bi no período. É a segunda capital que mais investiu em termos per capita, com R$ 180,97 por habitante.


Uma pausa, por favor.


Então, está tudo bem? Fim da discussão? Os paulistas estão sendo bem atendidos pela Sabesp, e temos mais é que comemorar?


Não. Não. Não!


Temos que rever esses números com a luz da RELATIVIDADE. Sim, porque, no que se refere a tamanho populacional, São Paulo não tem para ninguém. É, de longe, o município mais populoso do Brasil. Estamos falando de doze milhões, trezentas e vinte e cinco mil, duzentas e trinta e duas pessoas (IBGE 2020). Só para efeito de comparação, Brasília tem três milhões, cinquenta e cinco mil, cento e quarenta e nove habitantes.


Com isso em mente, tudo muda de figura. Qualquer 1% faltante por aqui atinge um grupo imenso de pessoas. No “atendimento urbano de esgoto”, 3% da população paulistana recebe água, mas não tem conexão à rede de esgoto. Estamos falando de quase 370 mil pessoas...


A situação é muito (muito!) pior com relação a “esgoto tratado referido à água consumida”. Veja: 25,87% da população atendida com água – mais do que toda a população de Brasília – tem seus esgotos vertidos nas represas, nos rios e córregos da cidade. Simples assim.


Há outros indicadores que também chamam atenção:

• Perdas no faturamento total: 25,64%.

• Perdas na distribuição: 31,03%.

• Perdas volumétricas (litros/ligação/dia): 281,52.


Verdade seja dita: o segundo número vem caindo no decorrer dos últimos cinco anos. Mas isso pouco importa, porque o percentual continua altíssimo! Mais de 30% de todo o volume de água tratado simplesmente se perde.


Vale repetir: mais de 30% de todo o volume de água tratado se perde. A Sabesp capta, trata e joga fora. Culpa dos vazamentos.


Nossa (pobre) Guarapiranga...


Agora, vamos voltar os olhos para a Guarapiranga. Estamos falando da principal fonte de água da cidade de São Paulo. A represa abastece não menos que 5 milhões de pessoas.


Dito isso, que venha a grande incoerência: a Guarapiranga, um manancial usado pela Sabesp, um dos destaques no Ranking de Saneamento 2022, agoniza.


Considerando as ocupações irregulares, há cerca de 1 milhão de pessoas no entorno da Guarapiranga jogando cocô na água que será bebida na semana seguinte.


Tem mais: uma estação elevatória de esgoto localizada no arco de Parelheiros, ao lado do terminal Varginha, está sem funcionar há muitos meses. Mais veneno na veia da represa tão doente.


É indiscutível: desde 2015, a qualidade da água da Guarapiranga só piora. Os dados provêm de laudos técnicos produzidos periodicamente por pesquisadores do Projeto IPH (Índice de Poluentes Hídricos), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).


Conclusão: a maior concessionária de saneamento do Brasil não dá conta da água que está no coração da cidade mais importante do país.


Ranking de Sane... o quê?


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